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quinta-feira, 2 de abril de 2009

O perigo do crescimento eterno

Com o lançamento de "Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem", Hugo Penteado deu à discussão ambiental no Brasil um novo patamar ao basear toda sua argumentação na crítica do modelo de desenvolvimento dos grandes países: "Não há crescimento econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em total perigo".

Com o lançamento de "Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem", Hugo Penteado deu à discussão ambiental no Brasil um novo patamar ao basear toda sua argumentação não nas costumeiras bandeiras desfraldadas pelos verdes, mas sim ao dirigir sua crítica ao modelo de desenvolvimento dos grandes países: "Não há crescimento econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em total perigo".

O autor, economista-chefe do ABN AMRO Real, afirma que o grande problema se encontra na obsessão do sistema em buscar crescer sem parar - mesmo que o combustível venha de fontes finitas de abastecimento, como a água. Ele alerta: "O risco econômico está na necessidade de crescer quantitativamente a qualquer custo para garantir a saúde financeira de três sistemas principais: o mercado financeiro, oprevidenciário e o fiscal. Dado que o crescimento econômico é impossível do ponto de vista do espaço físico e ambiental, esses sistemas estão fadados à falência. O que vamos ver nos próximos anos é uma enorme crise econômica que pode acontecer muito antes da crise ecológica".

Desde o lançamento do livro, Penteado tem dado palestras em todo o País, aceitando convites vindos de entidades de classe e universidades. A seguir os principais trechos de sua entrevista exclusiva.

Gazeta Mercantil - Qual a explicação do surgimento da Ecoeconomia ou Economia Ecológica?
Hugo Penteado - Ao contrário do que muitos pensam, os principais motivos de ela ter surgido não foi o buraco da camada de Ozônio e sim os fracassos nas áreas social e ambiental, apesar da enorme expansão econômica e do desenvolvimento dos últimos anos. Hoje, os níveis de uso dos recursos finitos da Terra são alarmantes. Recursos finitos leiam-se recursos naturais como água e solo ou o equilíbrio climático-ecológico entre as espécies vivas, sem o qual não sobreviveremos na Terra. Lester Brown(*) batizou esse fenômeno de aceleração histórica: em um ano somos capazes de produzir mais bens e serviços que desde o início da humanidade até a Segunda Guerra Mundial.

O Clube de Roma já alertava para esse fenômeno: o sistema econômico está sendo submetido a um crescimento exponencial. Alguém ainda vai ganhar um Prêmio Nobel ao provar que o território americano tem um tamanho constante de 9,3 milhões de km², sobre o qual é impossível adicionar um fluxo de PIB de milhões de carros, casas e coisas de forma crescente.

Gazeta Mercantil - O crescimento é impossível por causa do tamanho do território?
Hugo Penteado - A escola Neoclássica resolveu o problema do crescimento infinito pelos ganhos de eficiência e da substituição infinita dos materiais da natureza pelo capital, mas Nicholas Georgescu-Roegen avisa que não há outros fatores materiais que não os da natureza. Além dessa enorme crítica, a escola Neoclássica nunca resolveu o problema do espaço físico finito em superfície. Isso mostra um profundo desconhecimento da Física. Mas não importa. Para se ter uma idéia, se os Estados Unidos crescerem o que Wall Street demanda que ele cresça, em 10 anos ele irá adicionar 9 economias iguais ao Brasil de hoje e a distância entre os ricos e pobres será maior do que nunca. Crescer 9 Brasis num território constante de 9,3 milhões de km² é impossível.

Por isso, estamos vivendo uma crise de crescimento nos países ricos, com a qual todos irão sofrer. Além desse crescimento não gerar empregos compatíveis com o crescimento populacional absoluto, ele não gera empregos permanentes nem fluxos permanentes. Esse erro teórico de ignorar o espaço físico finito e manter um crescimento suicida colocou as espécies animais e vegetais desse planeta na maior rota de extinção em 65 milhões de anos, de forma totalmente antropogênica.

Stephen Jay Gould dizia que não se trata de um processo de extinção natural de milhões de anos e sim de uma larga destruição de habitats e de alterações no equilíbrio ecológico, além da caça desenfreada. Hoje é aterrador perceber o que a espécie humana está fazendo contra seus pares e essa é a maior prova que não há ambiente para essa obsessão maníaca.

Gazeta Mercantil - A extinção da biodiversidade na Terra é um problema econômico?
Hugo Penteado - Sim, está ligado ao nosso sistema econômico, que pretende ampliar suas estruturas exponencialmente dentro de um espaço finito como a Terra. O ser humano aparentemente menospreza todas as formas de vida que não o seu próprio umbigo. Nós não nos vemos mais como uma espécie animal imortal e sim como indivíduos. Foi com essa visão individualista que Keynes proferiu a sua famosa frase: "No longo prazo estaremos todos mortos". Mas como uma espécie animal jamais estará morta, o que vamos deixar então para as gerações futuras?

Ora, o crescimento econômico é um crime num espaço finito cujo equilíbrio ecológico garante que a energia solar faça nossos corações baterem e garante que o oxigênio seja produzido nos mares e oceanos para todos respirarem. Veja o que está acontecendo nos oceanos: 90% das populações dos grandes predadores foram extintas; os corais, lares de grande parte das espécies oceânicas, estão agonizando; as costas dos mares onde vivem e se reproduzem peixes estão devastadas; 75% dos rios foram alterados; os manguezais destruídos a uma alta velocidade.

Não há crescimento econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em total perigo. Fala-se da destruição da Amazônia, mas ninguém comenta que 99% das florestas dos Estados Unidos e da Europa foram derrubadas e que para atender à demanda desses países ricos, 75% das florestas tropicais já se foram. Apesar disso, antes do perigo ecológico, há o perigo econômico.

Gazeta Mercantil - Como assim? Essa não é uma preocupação meramente ecológica?
Hugo Penteado - De jeito nenhum. É impossível separar a economia da ecologia e isso só foi possível através de uma série de mitos e esses mitos impregnaram fortemente as teorias econômicas que influenciam as decisões dos governos até hoje. O risco econômico está na necessidade de crescer quantitativamente a qualquer custo para garantir a saúde financeira de três sistemas principais: o mercado financeiro, o previdenciário e o fiscal. Dado que o crescimento econômico é impossível do ponto de vista do espaço físico e ambiental, esses sistemas estão fadados à falência.

O que vamos ver nos próximos anos é uma enorme crise econômica que pode acontecer muito antes da crise ecológica. Os atrasos ecológicos, principalmente na agricultura, são muito grandes, mas isso pode ser uma chance para realinharmos nosso sistema para uma rota de equilíbrio, onde valores humanos, sociais e ambientais passem a fazer parte da equação.

Gazeta Mercantil - O crescimento populacional é um problema ecológico ou econômico?
Hugo Penteado - Ambos. Eu não acredito que o crescimento populacional possa ser ignorado para a questão do crescimento. Na equação de Solow ele é menosprezado dando espaço ao avanço tecnológico, mas não acredito nisso, é mais um erro teórico. Os países ricos estão preocupadíssimos com o baixo crescimento populacional, pois as populações no mundo todo estão envelhecendo e os custos com a previdência estão explodindo. As enormes populações da China e da Índia mostram erradamente que podemos ter enormes populações sem o menor problema, mas essa é uma análise superficial, pois grande parte dessas populações vive na miséria.

De qualquer forma, o mito de espaço infinito para tudo e todos fez com que a gente não se preocupasse com o crescimento absoluto e olhasse apenas para o crescimento percentual da população, que despencou nos últimos 30 anos. Os demógrafos falam que a população vai estabilizar algum dia e ao mesmo tempo toda a mídia e o governo estimulam um baby boom. Sem crescimento populacional o sistema de previdência de repartição simples vai falir; jamais deveria ter sido implementado um sistema no mundo que não fosse o de capitalização.

A dependência financeira de uma geração de pessoas em relação a outra conta com o mito de crescer sempre e cada vez mais, tanto do ponto de vista populacional quanto material. Lógico que isso não vai acontecer; lembre-se que a água e o solo são recursos renováveis, porém finitos, que estão sendo duramente degradados. Só 10% da água doce no mundo não está poluída hoje. Sem esse crescimento, o sistema de repartição simples na previdência não tem equilíbrio atuarial e já está sendo submetido a déficits financeiros crescentes.

Gazeta Mercantil - Mas as taxas de fertilidade e de natalidade estão despencando em todos os lugares; mesmo assim devemos nos preocupar com população?
Hugo Penteado - Primeiro, essa queda nas taxas é uma restrição econômica e financeira, quando olhamos o sistema previdenciário, e nenhum governo quer isso. Segundo, Malthus não errou porque relativizou a oferta de alimentos ao número de bocas; seu maior erro foi não enxergar nenhum problema no crescimento populacional, desde que a população crescesse lentamente. Na verdade, hoje estamos adicionando quase 80 milhões de pessoas por ano na Terra, o mesmo ritmo de crescimento absoluto de 30 anos atrás.

Um mito fez os demógrafos darem ênfase aos números relativos e não aos absolutos. Esses mitos fizeram os economistas olharem também para o crescimento relativo dos fluxos e não os absolutos. Ninguém se importa com o aumento gigantesco de casas e veículos em termos absolutos, apenas com a taxa de crescimento. Focamos em fluxos e em crescimento relativo, as variáveis econômicas principais são fluxos. Isso é fruto do mito que está colocando a humanidade numa rota suicida, tanto do ponto de vista ecológico quanto econômico.

Gazeta Mercantil - Mas isso tudo é muito óbvio. Então o que estamos fazendo para mudar as atuais tendências econômicas?
Hugo Penteado - Se olharmos a corrente política tradicional, nada; e os problemas estão se amontoando. O modelo de crescer a qualquer custo nunca esteve tão forte e é uma pregação messiânica diária. A frase preferida de todos é temos que crescer, embora isso não gere empregos de forma permanente, não seja sustentável para as pessoas e com as condições do meio ambiente e da biosfera. Essa obsessão maníaca por crescimento está disseminada, é tratada de forma totalmente acrítica por todos.

Quando abrimos fronteiras agrícolas aqui no Brasil, deixamos de lembrar que somos o único País com fronteira em expansão no mundo hoje. Os economistas tradicionais comemoram, mas os economistas ecológicos enxergam nisso uma atividade que está importando para dentro do Brasil a insustentabilidade ambiental de países ricos e de países populosos como a China, cujo déficit de alimentos não só já existe, como vai aumentar. O USDA, departamento agrícola americano, prevê déficit de produção de alimentos nos Estados Unidos com a exaustão do aqüífero fóssil Ogallala e na China com a perda de solo fértil. Isso tudo para alimentar uma enorme população que ainda cresce 14 milhões por ano.

Esse déficit vai transformar a Amazônia numa enorme monocultura, cujo déficit de empregos da última década no setor agrícola brasileiro alcança milhões de trabalhadores. São atividades insustentáveis e que expulsam o ser humano, para dizer o mínimo.

Mas não importa: há uma máxima em Filosofia pela qual quando nossos interesses estão em jogo ficamos completamente cegos. Não estamos na verdade vivendo uma crise ambiental e econômica e sim uma enorme crise de valores. Não há tempo para discutir mais essa crise, nem há mais tempo para fazer coisas erradas, mas infelizmente, apesar da falta de tempo, continuamos presos na obsessão pelo crescimento. Basta ver que as únicas políticas econômicas que importam e que regem o mundo são as de demanda (monetária e fiscal).

Para as teorias econômicas tradicionais podemos dizer que a produção de bens e serviços - mesmo que finito - não sofre nenhuma restrição e praticamente brota do nada. É com essa visão distorcida do mundo que estão sendo tomadas decisões que influenciam a vida de todos, decisões que estão nos levando em primeiro lugar para uma falência econômica e em segundo lugar para um risco ecológico do qual ainda não sabemos o tamanho. (Gazeta Mercantil - Eduardo Burato)

Faça o download integral e gratuito do livro Eco-Economia, do Lester Brown, na Biblioteca Digital WWI-UMA - http://www.wwiuma.org.br

Fonte:
Gazeta Mercantil, 5 de março, 2004

terça-feira, 24 de março de 2009

Com a crise, roupa usada está na moda

Marcos Sá Corrêa
15/03/2009, 16:00

Não deixa de ser um alívio abrir o jornal e ver que até Warren Buffet, do alto de seus bilhões de dólares, está perplexo com esta crise internacional. “As pessoas mudaram seus hábitos de um modo que eu nunca tinha visto”, diz Buffet, porque as joalherias vendem menos do que vendiam antigamente e antigamente foi no ano passado, quando ele era o homem mais rico do mundo.

De lá para cá, as coisas aconteceram tão depressa que a entrevista de Buffet saiu no mesmo dia em que uma reportagem mostrando, no New York Times, o que as pessoas mais ou menos comuns estão achando dessas novidades.

Vestido velho

Uma colunável americana acaba de ser fotografada numa festa em Atlanta com um vestido de dez anos atrás. Um grande advogado de empresas deu para preferir restaurantes que aceitem tíquete-refeição. Curada de seu “comprismo compulsivo”, uma professora de Chicago passou a buscar a felicidade naquilo “que o dinheiro não pode comprar”.


O gerente de uma imobiliária perdeu o faro para fuçar liquidações. Ultimamente, em vez de se espelhar na gravata nova que o colega “à direita” encontrou num balcão de pechinchas, ele anda de olho “nos quatro sujeitos à esquerda que foram demitidos e não arrumam emprego”. Cada um com seu jeito de encarar a crise. E todos comprando menos.


Debutou na praça um novo padrão de elegância, depois de uma longa era de extravagância e exibicionismo, que caducou de repente, mais ou menos pelo mesmo efeito de contágio que, no Brasil, marcou as gravatas Hermès e o uísque Logan como símbolos da Nova República alagoana, com o impeachment do presidente Fernando Collor.


O resultado, nos Estados Unidos, é uma retração do mercado bem maior do que a prevista pelos cálculos estritamente financeiros. Lá, pelo menos, não pegou a receita caseira do presidente Lula de afogar a marolinha do colapso econômico numa onda de consumismo cívico. Ao contrário, a abstinência conspícua abriu uma nova escola de grã-finagem. E, se valer o exemplo da grande depressão do século 20, a austeridade pode durar uma geração.


“Eu acredito mesmo que agora é tipo chique ou sei lá poupar dinheiro e catar centavos”, admitiu uma advogada à repórter Shaila Deway. “Nós todos tínhamos transbordado e estamos tentando voltar ao ponto onde deveríamos ter ficado”, explicou-se Sacha Taylor, a tal socialite que tirou o vestido de gala do armário.


Só havia um defeito na reportagem. Ela não saiu, como deveria, nas páginas de meio ambiente, que a tornaria naturalmente mais otimista. Bastava encaixá-la na moldura certa, a da outra crise, a do desenvolvimentista, que freou bruscamente em meados do ano passado. Aos olhos da hipocondria ambiental, nada mais saudável que uma pausa num crescimento que fazia os chineses comprarem 14 mil carros novos a cada 24 horas, injetava um Portugal inteiro por ano no mercado da classe média indiana e, num dia muito quente do verão de 2006, tirou 1.100 aparelhos de ar condicionado das prateleiras de uma única loja da cadeia Wal-Mart em Shenzhen.


Era isso que os ambientalistas queriam dizer, resmungando que não havia planeta que chegasse para tanto consumidor. Mas quem estava aí, meses atrás, para ouvir conversa de ambientalista, com um norte-americano custando à atmosfera terrestre, em CO2, o equivalente a 32 quenianos e todo mundo convencido de que chegara a sua hora de viver como norte-americano?

Fonte: www.oeco.com.br

terça-feira, 10 de março de 2009

A crise é uma extraordinária oportunidade

02/02/2009
Fonte: O Globo

Para presidente do Instituto Akatu, é o momento de as pessoas repensarem os seus padrões de consumo

Osvaldo Soares
osvaldo@oglobo.com.br

Diretor-presidente do Instituto Akatu Pelo Consumo Consciente, Helio Mattar consegue enxergar uma boa notícia em tempos de tantos abalos na economia global. Para ele, a crise é uma grande chance para as pessoas mudarem seus padrões de consumo em busca de uma sociedade mais sustentável.
Algo que, segundo Mattar, terá que ser feito mais dia menos dia, seja por causa do desemprego ou da falta de crédito, seja devido ao esgotamento dos recursos naturais decorrente dos atuais patamares de produção e consumo. Para ele, vivemos na “sociedade da falta”, em que nunca estamos satisfeitos. “A gente precisaria de uma sociedade do bastante, na qual as pessoas vão consumir aquilo que basta a elas para ter bem-estar”. Nesse processo, propõe até a redução do número de horas de trabalho. Ainda segundo ele, a crise reduzirá a marcha do movimento de responsabilidade social no país, mas será mais bem enfrentada pelas empresas que já incorporaram a sustentabilidade à sua gestão.

GLOBO: Como um consumidor consciente deve fazer na crise atual? Se continuar comprando, como pediu o governo, ele ajuda a pôr o planeta em risco. Por outro lado, se diminuir o consumo, ele ajuda a reduzir a atividade econômica e a agravar a crise, que já resulta em milhares de demissões...
HELIO MATTAR: Em primeiro lugar, a gente deve ressaltar que esta crise é uma crise do consumo.
Deriva do excesso do consumo que uma grande parcela da população americana procurou fazer em cima de ativos que estavam supervalorizados.
Em outras palavras, o indivíduo tinha uma casa que valia US$ 100 mil. Ele refinanciava o imóvel, cujo valor de mercado supostamente se valorizara para US$ 150 mil ou US$ 200 mil. Um banco oferecia a ele então um financiamento tendo como colateral (garantia) a casa, ou aquela parcela do imóvel que havia se valorizado. O indivíduo recebia esse dinheiro e o usava não para investir, para gerar recursos para ele, mas para consumir. Então esta é uma crise do sobreconsumo.

O GLOBO: Por que o senhor diz que as consequências da crise também têm a ver com o sobreconsumo?
MATTAR: Vamos ver quais são os principais setores afetados. O primeiro é o automobilístico. No Brasil, houve uma queda de até 30% nas vendas do último mês (dezembro) contra o último mês do ano anterior. Nos Estados Unidos, a queda foi de 50%.
Numa sociedade em que os produtos têm uma obsolescência programada, as pessoas continuamente estão atualizando seus produtos. No momento de uma crise, obviamente elas estão com os produtos atualizados e não há obsolescência programada que dê jeito nisso.

O GLOBO: O que é a obsolescência programada?
MATTAR: Isso é uma coisa discutida cotidianamente como estratégia das empresas de produtos. Um liquidificador custa, sei lá, R$ 50, R$ 60. Ele vai durar um ano, dois anos, e acabou, você nem vai mandar consertar. Cinquenta anos atrás, meus pais mantinham um liquidificador por 30 anos, ele literalmente era um produto durável.
Custava obviamente muito mais caro, mas por 30 anos só demandava da natureza uma única vez.

O GLOBO: Como agir então na crise?
MATTAR: A pergunta que você me faz é a seguinte: como é que a gente faz para compatibilizar a questão econômica com a social e a ambiental. E a resposta é a seguinte: a crise é uma extraordinária oportunidade de as pessoas compreenderem que é possível viver de uma outra forma. É possível não viver numa sociedade em que a gente tenha uma contínua tensão do consumo e que eu caracterizo como sendo a sociedade da falta...

O GLOBO: Por quê?
MATTAR: Porque sempre estamos em falta. A gente acabou de comprar um telefone celular, já surgiu um outro e nós pensamos: puxa vida, olha que pena, comprei hoje e o novo aparelho tem aquele recurso e tal. Então é a sociedade da falta, a gente nunca está satisfeito. A gente precisaria de uma sociedade do bastante, aquela na qual as pessoas vão consumir aquilo que basta a elas para ter bemestar.
Elas vão substituir aquilo que hoje seria uma sociedade da acumulação por uma sociedade do bem-estar. O que as pessoas precisam se perguntar é: o que eu preciso para o meu bem-estar?

GLOBO: Que outras características teria essa sociedade?
MATTAR: As pessoas buscariam um sentido para as suas vidas não no consumo. O significado de viver estaria nas emoções, nos afetos, nas amizades, nas coisas que de fato compreendem o bem-estar das pessoas. E o consumo seria apenas um instrumento para o bem-estar. Essa sociedade, do ponto de vista ambiental, seria muito mais sustentável. Do ponto de vista econômico, teria muito menos risco, porque as pessoas se endividariam menos. A crise pode mostrar às pessoas que consumir, consumir, consumir pode não ser uma maneira de viver. Em vez de ficarem chateadas por causa da crise, aproveitem para se perguntar do que realmente precisam. E aproveitem para usar o seu tempo, que aliás é precioso,para fazer coisas que não tenham custo.
Para fazer um passeio pelo parque, para estar com os amigos, para fazer um roteiro cultural, visitar um museu. Para fazer coisas que as alimentem emocionalmente e tenham baixa despesa.

O GLOBO: O senhor disse, em outra entrevista, que as pessoas precisam repensar o seu estilo de vida, para consumir menos e gerar menos lixo. No caso do celular, por exemplo, o senhor disse que na fabricação de um aparelho são gastos entre dez e 20 vezes o peso dele em recursos naturais. No caso do automóvel, duas vezes. Olhando por esse lado, a crise é uma boa notícia para o meio ambiente?
MATTAR: Desse ponto de vista, a crise seria uma ótima notícia para o meio ambiente, se as pessoas e os governos raciocinassem sobre o atual modelo de produção e consumo. Mas acaba sendo má notícia, porque as pessoas morrem de medo do desemprego que vai ser criado. Agora, a crise é ainda uma oportunidade para se pensar se a gente não deveria reduzir a carga de trabalho. Se a gente não deveria pensar num processo em que se redistribuísse renda, reduzindo a carga de trabalho e incluindo no mercado mais pessoas. Mas isso só é possível se as pessoas se derem conta de que consumo não é igual a felicidade.

O GLOBO: Qual a diferença, na prática, de uma redução do consumo provocada pela crise e uma causada por um novo estilo de vida?
MATTAR: A diferença é que, na crise, dado que as pessoas não se dão conta do sofrimento que estão vivendo na sociedade da falta, elas vão achar que só há coisas ruins. Já se elas fizessem uma mudança no seu modelo de vida e nos seus valores, iam se dirigir a isso com alegria, iam dizer: puxa, esta é uma oportunidade de eu trabalhar menos, de estar mais em contato com os amigos, de me dedicar ao meu desenvolvimento espiritual, para ter uma vida mais plena do que esta em que eu trabalho, trabalho, trabalho, me endivido, me endivido, me endivido, consumo, consumo, consumo, tudo isso para poder trabalhar, trabalhar, trabalhar mais, e aí não vai ter jeito.

O GLOBO: Quais serão os principais reflexos da crise no movimento de responsabilidade social empresarial no Brasil?
MATTAR: A gente tem que olhar pelo menos três grupos no mercado. Tem o das melhores empresas, que já incorporaram a cultura da sustentabilidade aos seus negócios. Nessas, imagino que a mudança não será pronunciada. O segundo é daquelas que ainda fazem ações de sustentabilidade de maneira muito fragmentada, onde a sustentabilidade não se tornou ainda uma cultura. Nessas, eu imagino que haverá um maior efeito. A evolução para uma cultura de sustentabilidade será mais lenta, porque os esforços vão estar voltados para a sobrevivência. Depois há um terceiro grupo de empresas, sem preocupação efetiva com cultura de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental.
Essas vão continuar operando como sempre. Para o movimento como um todo, talvez diminua um pouco a velocidade na qual a ação de sustentabilidade vai se dar. Mas não nas melhores empresas. E essas é que são importantes, porque puxam o mercado.


O GLOBO: Elas estariam então mais bem aparelhadas para enfrentar a crise?
MATTAR: Não tenho dúvida. As empresas com uma cultura de sustentabilidade mais consolidada têm um nível de participação dos funcionários muito maior. Há elementos que fazem a ligação, servem de fio condutor entre as várias pessoas para que a empresa funcione como ela funciona. E isso num momento de crise torna a empresa, como se diz em física, mais resiliente. O que quer dizer isso? Um organismo mais interligado, em vez de fragmentado, quando toma uma pancada a absorve e volta à posição original. É isso que ocorre com as empresas em que uma gestão sustentável já se colocou na prática. A empresa tem mais resiliência porque os seus funcionários, como um todo, têm uma visão comum.

"A crise pode mostrar às pessoas que consumir, consumir, consumir pode não ser uma maneira de viver.
Em vez de ficarem chateadas por causa da crise, aproveitem para se perguntar do que realmente precisam"

Helio Mattar, presidente do Akatu

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009